London edition.



Mude, mas comece devagar,

porque a direção é mais importante que a
velocidade.
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho, ande por outras ruas,
calmamente, observando com
atenção os lugares por onde você passa.


Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia,
ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.


Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama...
Depois, procure dormir em outras camas
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais... leia outros livros.
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia.
O novo lado, o novo método, o novo sabor,
o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
A nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida,
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete,
outro creme dental...
Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas,
troque de carro, compre novos
óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros,
outros teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light, mais prazeroso,
mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já
conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento, o dinamismo, a energia.
Só o que está morto não muda !
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco,
sem o qual a vida não vale a pena !

- Mudança, Clarice Lispector -

Mudei de país. Troquei a bela cidade Invicta por Londres, essa metrópole pot-pourri que me fascina e intriga, me desgasta e me renova as forças, diariamente. 

Estou em Londres há dois anos e quase dois meses e cabe uma vida inteira no conjunto desses dias e noites. Não sou daqui, mas também já não sou completamente de lá - e, por mais esquizofrénico que isto possa parecer, o meu lar passou a ser aqui, neste pedaço de mundo com mais habitantes do que Portugal inteiro.

Vim porque precisava de uma mudança, acima de tudo. De algo que me permitisse estruturar o futuro, coisa que em Portugal, por diversos motivos, não estava a ser possível. 
Vim à procura de mim mesma, nesse cliché tão verdadeiro como descabido, porque imperfeito e incompleto. Vim porque senti essa vontade, porque achei que devia, que me iria fazer bem, sabendo que essa mudança, embora nem sempre fácil, era necessária para (re)começar a minha vida. 

Antes de vir, escrevia num outro cantinho que muito me enriqueceu. No entanto, a falta de tempo que esta mudança de rotina suscitou, votou-o ao completo abandono e fez-me questionar a pertinência do mesmo.  

Nesta fase da minha vida, contudo, ter um blogue faz-me cada vez mais sentido. Porque preciso de escrever, de partilhar o que estou a viver, a ver e a sentir. Preciso de escrever na minha língua materna, enquanto exercício de organização mental e sentimental, até. É uma necessidade quase física, assim como precisarmos de ar para respirar. 

Não sei a quem possa interessar o que irei escrever. Talvez alguém se reveja na partilha e sinta necessidade de interagir, de partilhar algo de volta. Ou apenas ler em silêncio.
Sei que irei continuar a escrever e a contar histórias - pela tal necessidade física e mental, porque é isso que sou, porque me faz uma falta tremenda. 

Por mim. Para quem possa interessar.